quinta-feira, 1 de maio de 2014

Genealogia da paixão

Ofereço-vos as nossas fotografias mal tiradas em prova de boa amizade. Às minhas queridas amigas todas. (1)


A minha tão grande amiga.

Mando-te o retrato da minha casa com a filha da minha irmã.

Uma lembrança de sua colega, que muito a estima e admira.

A você, de sua colega que muito a quer.

Não esqueças o teu pai, estuda muito, serás feliz.

Ofereço esta minha foto à querida tia, com muita amizade desta sua sobrinha.

Como prova de verdadeira amizade e estima ofereço à amiga, certa de que nunca a esquece.

Aos 4 anos de idade. Ofereço como recordação ao tio.

Ofereço às minhas queridas afilhadas o retrato de nós todos. Talvez não nos conheceis. Foi tirada no quintal.

Tia, ofereço-lhe esta fotografia em prova de amizade.

Aí te mando esta fotografia que o tio me mandou, então mando a ti, que eu já tenho cá mais delas. Visitas do tio e da tia e do meu amigo e do primo e prima e do homem e do menino. Eles todos estão bem e procuram sempre por vós.

Família reunida.

Ofereço aos meus compadres como prova de amizade.

Recordação das bodas de prata do casal. Será celebrada a missa às 17 horas.

Ofereço-vos as nossas fotografias mal tiradas em prova de boa amizade. Às minhas queridas amigas todas.


(1) Fotografia de meu acervo pessoal, década de 1960.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Sujos quintais com tesouros


Arquivos, sujos quintais com tesouros. (1)

No final dos anos 1930, Walter Benjamin chamou a atenção para a mudança crucial pela qual passou a sociedade moderna – uma mudança perceptiva, em que a possibilidade de contemplação deu lugar a uma experiência fragmentada e desatenta, em que prevalece o olhar distraído.

Isso se deu na recepção da obra de arte, mas não apenas. É a marca determinante da experiência urbana (2). Mergulhado na multidão e sobrecarregado por uma miríade de estímulos sensoriais, muitos deles óticos, resta ao homem moderno dirigir sua atenção para um ou outro desses estímulos – aquele que, porventura, consiga sobressair-se em meio à profusão de outros tantos.


Se isso foi o que Benjamin observou sobre a Paris de seu tempo, o que dizer de uma megalópole como São Paulo?


O fato é que, contemporaneamente, ainda podemos reconhecer em nossa experiência muito do que Benjamin apontou: somos envolvidos por um fluxo que raramente nos permite um contato mais profundo com as coisas. Andamos, na maior parte das vezes, apressados, desatentos, acostumados.  Sem tempo e sem disponibilidade emocional para tentar quebrar o tráfego acelerado que marca a experiência urbana.


Diante dessa circunstância, duas questões me parecem fundamentais.


A primeira: se nosso olhar é seletivo, e atentamos apenas para os estímulos que conseguem se sobressair, o que seria aquilo que deixa de ser visto?


A segunda: esse modo – desatento e superficial – de relacionamento com a cidade não acabou por contaminar outras esferas de nossa experiência?


Afinal, para o que não olhamos? O que deixamos de ver?


Não olhamos o velho, o sujo, o perdido, o pequeno. O que está na valeta, nos esgotos, no lixo. O que está na gaveta. O que não faz diferença. O que não tem serventia. O desbotado, o indefinido, o que deixou de ser. O que está na margem, o que está na sombra. O arranhado, o pouco, o rasgado.


As “pobres coisas do chão mijadas / de orvalho”, como diria o poeta Manoel de Barros (3).


De todas as esferas que se ressentiram desse modo de olhar e sentir, a meu ver, a que mais tem sido atacada é a memória – pessoal e coletiva.


Desatentamente lidamos com o passado e com as marcas que ele deixou. E, assim, vemos, com alguma estupefação, prédios históricos serem “devorados” pela ânsia por lucros e acervos pessoais e coletivos serem esquecidos em gavetas de armários ou em museus.


É por isso que meu olhar se volta para meu acervo pessoal: para extrair o que nele ainda há de vida. O que nele ainda dialoga com o que sou.


Como um flâneur, que mergulha na multidão para nela viver o contraponto da desatenção, pretendo mergulhar no meu acervo familiar, que se encontra, como tantos outros, em situação de gaveta, na certeza de que ali, naquele sujo quintal, pode se esconder um tesouro.


Observação: o título foi apropriado do seguinte trecho de Clarice Lispector: “(...) levianamente eu concluíra pela moral oposta: alguma coisa sobre o tesouro que se disfarça, que está onde menos se espera, que é só descobrir, acho que falei em sujos quintais com tesouros.” (“Os desastres de Sofia”. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1996.)



(1) Fotografias de meu acervo pessoal, durante processo de higienização.
(2) MARQUES, Susana Lourenço. Cópia e apropriação da obra de arte na modernidade (mestrado). Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2007.
(3) BARROS, Manoel de. Poesia completa. São Paulo: Leya, 2010, p. 343.